Como tudo começou

 

Sines, 13 de Fevereiro de 2019

 

Querido feijão,

Esta é a primeira carta que te escrevo desde que te descobrimos, por isso peço que me dês um desconto.

A minha cabeça está uma confusão, uma mistura de emoções. Só quem passa pelas coisas sabe como realmente são. E a verdade é que não são fáceis, engana-se quem pensa que são.

Tínhamos uma decisão tomada, não que fosse de facto a decisão que eu tomaria, mas estava decidido. Mas hoje tudo mudou, ri e chorei, num misto de alegria e ansiedade, medo e preocupação. Ainda não sei o que sinto nem tão pouco o que deva sentir. A verdade é que uma pequena imagem pode mudar todas as decisões do mundo.

Hoje vimos-te pela primeira vez e, supostamente, a que seria a última. Nem era suposto ver-te, mas a curiosidade falou mais alto e senti-me tentada a abrir o envelope. Só íamos saber há quanto tempo estás aqui dentro, mas as coisas mudaram a partir do momento em que abri o envelope e vi a ecografia, e mesmo sem entender aquelas imagens esquisitas soube que aquela pequena mancha eras tu, um feijãozinho a crescer dentro de mim há 6 semanas e 5 dias. O meu coração ficou pequenino e apertadinho, não consegui fazer aquilo que era “suposto”. Ganhei coragem e disse que não queria fazer nada disto, que não conseguia, que nenhuma mulher devia passar por isto e que ninguém devia sentir-se obrigado a decidir o que fazer numa situação destas. O pai concordou comigo e chorámos e rimos juntos, tudo ao mesmo tempo.

Vou rezar para que tudo corra bem, estou ansiosa por contar ao mundo sobre ti.

Até à próxima carta.

Um beijo.

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