Os medos

 

Santiago do Cacém, 20 de Junho de 2019

 

Querida Clarinha,

Esta não é, na verdade, uma carta tão direccionada a ti apesar de ter também que ver contigo. É mais um desabafo, de vez em quando também preciso.

Acordo vezes sem conta. Não consigo voltar a adormecer. Todo este medo e ansiedade não me deixam descansar. E se eu não for capaz? Arrepender-me-ei de ter prosseguido com algo porque por uma vez na vida decidi ouvir o coração? Agora existe alguém que depende de mim, mas e se eu fizer asneira? O mais provável é levar com todas as pessoas que “me avisaram”. Não quero dar-lhes razão. E, ainda que só em pensamento, por vezes pergunto-me se terei tomado a decisão certa.

Sabia que não seria fácil, mas isto? Está a ser mais complicado do que esperei. Por uma vez gostava que as coisas fossem um pouco mais fáceis, mas não. Para quê facilitar?

Sinto que tudo isto é um teste, que tem como único propósito ver até onde eu aguento e testar os meus limites. Mas tenho tanto medo de ir abaixo. De um dia não aguentar mais. E aí é que eu não sei o que vou fazer.

Tenho este receio constante de não conseguir seguir com a decisão que tomei. Mas não quero deixar ninguém mal. É tudo o que eu não quero. Mas sinto que já desiludi tanta gente…

Há agora alguém a quem não posso falhar, alguém que depende de mim e a esse alguém não posso, de todo, falhar. Mas tenho tanto medo de o fazer e que um dia lhe falte alguma coisa que precise porque eu me precipitei na decisão.

Já sonhei tanto que tudo me caía em cima sempre com a maldita frase “eu bem te avisei”. Tenho medo de faltar com algum bem essencial à minha filha que, juro por Deus, amo tanto… Ela é tudo o que eu um dia sonhei e para o meu futuro. Mas sinto que o meu mundo está a ruir e eu não sei como o fazer parar. Por mais que tente, sinto que as minhas tentativas são todas em vão.

Apesar de tudo, prometo que vou sempre tentar fazer o melhor que conseguir, e se não conseguir arranjo forças para que consiga. Tudo por ti, tudo para ti.

Amo-te, minha Clara.

Até à próxima carta.

Um beijo.

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